{"id":5100,"date":"2018-06-08T11:57:26","date_gmt":"2018-06-08T14:57:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.folhadocomercio.com.br\/folha-do-comercio\/?p=5100"},"modified":"2018-06-08T11:59:52","modified_gmt":"2018-06-08T14:59:52","slug":"5100","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.folhadocomercio.net.br\/?p=5100","title":{"rendered":"Petrobr\u00e1s: o mito de uma empresa quebrada"},"content":{"rendered":"<div class=\"bt_bb_wrapper\"><h2 class=\"itemTitle\"><strong style=\"font-size: 16px;\">Protagonista na economia brasileira, Petrobr\u00e1s \u00e9 alvo do mito de que estaria quebrada financeiramente<\/strong><\/h2>\n<div class=\"itemFullText yjk2_intro\">\n<p>\u00a0Empresa brasileira no rol das mais valiosas em a\u00e7\u00f5es, uma das l\u00edderes mundiais no setor de petr\u00f3leo e g\u00e1s e s\u00edmbolo do nacionalismo que impulsionou a industrializa\u00e7\u00e3o do Brasil nos anos 1950, a Petrobras tem reconhecido protagonismo na economia brasileira. Nos \u00faltimos anos, no entanto, tem sido alvo de narrativas que distorcem sua real situa\u00e7\u00e3o financeira, que permanece saud\u00e1vel mesmo diante de casos de corrup\u00e7\u00e3o. Para discutir o mito de que a empresa est\u00e1 &#8220;quebrada&#8221; e, portanto, deveria privatizar suas subsidi\u00e1rias, o Clube de Engenharia e a Associa\u00e7\u00e3o dos Engenheiros da Petrobras (AEPET) realizaram, em 5 de junho, o painel &#8220;O mito da Petrobras quebrada, pol\u00edtica de pre\u00e7os e suas consequ\u00eancias para o Brasil&#8221;. Foram convidados para o evento Cl\u00e1udio Oliveira, economista aposentado da Petrobras; Felipe Coutinho, presidente da AEPET; e Paulo C\u00e9sar Ribeiro Lima, doutor em Engenharia Mec\u00e2nica, ex-pesquisador l\u00edder do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento Leopoldo Am\u00e9rico Miguez de Mello (Cenpes), da Petrobras, e atual consultor legislativo para o setor de petr\u00f3leo e g\u00e1s na C\u00e2mara dos Deputados.<\/p>\n<p>&#8220;Queremos discutir a farsa do desmonte da Petrobras e as consequ\u00eancias nefastas da pol\u00edtica que vem sendo implementada na empresa para fazer com que ela deixe de cumprir o papel hist\u00f3rico que tem desde que foi criada, na d\u00e9cada de 1950: o papel de garantir ao pa\u00eds e \u00e0 sociedade o suprimento de combust\u00edveis e petroqu\u00edmicos, a seguran\u00e7a, para que possa haver o desenvolvimento em nossa terra&#8221;, afirmou Pedro Celestino, presidente do Clube de Engenharia, na abertura do evento. &#8220;Estamos sujeitos a um processo de desmonte que nos remeter\u00e1, se n\u00e3o for sustado pela sociedade, ao tempo que esse pa\u00eds importava tudo. Voltaremos \u00e0 condi\u00e7\u00e3o colonial, de exportadores de mat\u00e9rias-primas, de \u00f3leo bruto e importadores de refinados e de petroqu\u00edmicos&#8221;, alertou. &#8220;\u00c9 preciso defender pol\u00edticas p\u00fablicas que assegurem a preserva\u00e7\u00e3o desse patrim\u00f4nio que \u00e9 a Petrobras, em benef\u00edcio do nosso povo&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Finan\u00e7as robustas<\/strong><\/p>\n<p>O economista Cl\u00e1udio Oliveira, s\u00f3cio honor\u00e1rio da AEPET, realizou um retrospecto do enquadramento que alguns profissionais da m\u00eddia deram sobre Pr\u00e9-Sal em diferentes reportagens, de in\u00edcio desqualificando a descoberta da Petrobras, depois duvidando da capacidade da petroleira de extrair o \u00f3leo nessa camada, e ainda criticando o custo inicial da extra\u00e7\u00e3o, que naturalmente foi se tornando mais baixo \u00e0 medida que novas tecnologias eram desenvolvidas. Em 2015, segundo Cl\u00e1udio, uma desvaloriza\u00e7\u00e3o muito grande do real frente ao d\u00f3lar levou ao crescimento da d\u00edvida da Petrobras, uma vez que 80% desses d\u00e9bitos eram em moeda estrangeira. Esse seria o elemento inicial para gesta\u00e7\u00e3o do mito de que a estatal estaria &#8220;quebrada&#8221;. &#8220;Disseram que a Petrobras tinha uma d\u00edvida impag\u00e1vel, a maior d\u00edvida de todas as petroleiras, e que, por isso, ela n\u00e3o teria condi\u00e7\u00f5es de explorar o Pr\u00e9-Sal&#8221;, disse Cl\u00e1udio. O enquadramento enviesado continuaria, com a narrativa crescendo e atingindo vi\u00e9s entreguista. &#8220;O ano de 2016 terminou e n\u00e3o houve nenhum acordo judicial ou aporte de recursos do Tesouro para a Petrobras. Ao contr\u00e1rio: a Petrobras adiantou 20 bilh\u00f5es de reais para aliviar o caixa do BNDES, terminou o ano com cr\u00e9dito de 6 bilh\u00f5es de reais com a Eletrobras e 11 bilh\u00f5es de d\u00f3lares para receber em venda de ativos. Al\u00e9m disso, possu\u00eda em caixa 22 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Que empresa quebrada \u00e9 essa?&#8221;, questiona Oliveira.<\/p>\n<p>&#8220;Um dos principais indicadores que demonstra a sa\u00fade financeira de uma empresa \u00e9 a gera\u00e7\u00e3o operacional de caixa, isto \u00e9, o que sobra depois que a empresa cobre todos os seus custos e despesas. \u00c9 o que sobra para pagar o servi\u00e7o da d\u00edvida, fazer investimentos, pegar dividendos etc. De 2012 em diante, essa gera\u00e7\u00e3o operacional de caixa da Petrobras se manteve linear. A corrup\u00e7\u00e3o, que dizem que afetou a Petrobras, n\u00e3o afetou a gera\u00e7\u00e3o operacional de caixa&#8221;, afirmou o economista. Este caixa, em 2012, fechou em 27,04 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, mantendo-se entre 25 e 27 bilh\u00f5es at\u00e9 o ano passado, quando atingiu 27,11 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, valor mais alto do per\u00edodo. &#8220;Em 2016, a Petrobras teve a maior gera\u00e7\u00e3o operacional de caixa em compara\u00e7\u00e3o com todas as outras grandes petroleiras&#8221;, salientou o economista. Outros dados, como retorno financeiro sobre vendas e liquidez corrente, corroboram a sa\u00fade financeira da estatal, principalmente se comparada com outras petroleiras.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica de pre\u00e7os praticada pela Petrobras na gest\u00e3o de Pedro Parente (2016-2018) n\u00e3o teve efeitos positivos sobre a gera\u00e7\u00e3o operacional de caixa da petroleira, afirmou Oliveira. Para o economista, a gest\u00e3o no per\u00edodo se preocupou mais em enxugar as atividades da empresa, preparando vendas de ativos, do que fortalecer a estatal e a explora\u00e7\u00e3o do Pr\u00e9-Sal.<\/p>\n<p><strong>Consequ\u00eancias da pol\u00edtica de pre\u00e7os<\/strong><\/p>\n<p>Felipe Coutinho, presidente da AEPET, afirmou que foi o mito de que a Petrobras estaria quebrada que embasou as mudan\u00e7as, em outubro de 2016, na pol\u00edtica de pre\u00e7os adotada pela empresa, pol\u00edtica esta direcionada para os planos de privatiza\u00e7\u00e3o da estatal. &#8220;Foi tudo justificado em cima do mito de que ela teria quebrado gra\u00e7as aos subs\u00eddios, \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o e aos maus investimentos. O que temos feito \u00e9 desmistificar tanto a quebra quanto dar clareza aos efeitos dos subs\u00eddios, da corrup\u00e7\u00e3o e dos investimentos, apresentando n\u00fameros \u00e0 sociedade para que eles sejam discutidos fora da percep\u00e7\u00e3o mitol\u00f3gica que \u00e9 repetida na m\u00eddia e que cria um senso comum de claros interesses anti-nacionais&#8221;, salientou.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia de adotar uma pol\u00edtica de pre\u00e7os alinhada ao mercado internacional fez com que eles subissem, j\u00e1 que passaram a ser acrescidas parcelas de internaliza\u00e7\u00e3o, de risco e de lucro do importador, explicou Coutinho. Consequentemente, houve a viabiliza\u00e7\u00e3o da importa\u00e7\u00e3o por concorrentes da Petrobras, levando a estatal a perder mercado e aumentar a ociosidade nas refinarias, que chegaram a operar com apenas 75% da capacidade instalada (25% ociosa). No primeiro trimestre deste ano, a ociosidade alcan\u00e7ou 28% da capacidade instalada.<\/p>\n<p>A exporta\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo cru disparou, enquanto que a importa\u00e7\u00e3o de derivados refinados bateu recordes. O diesel, por exemplo, teve sua importa\u00e7\u00e3o multiplicada em 1,8 vezes desde 2015, sendo que, deste ano at\u00e9 2017, a importa\u00e7\u00e3o de combust\u00edvel vindo dos EUA passou de 41% para 80% do total que chegou ao Brasil. &#8220;Essa constata\u00e7\u00e3o foi feita pela AEPET e publicada em dezembro de 2017, portanto um alerta antes da crise decorrente da greve dos caminhoneiros. Ganharam os produtores norte-americanos, os traders multinacionais e os importadores e distribuidores de capital privado no Brasil. Perderam os consumidores brasileiros, a Petrobras, que perdeu mercado, e a Uni\u00e3o e estados, impactados com a queda na arrecada\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que batizamos essa pol\u00edtica de &#8216;America First&#8217; ou &#8216;Os Estados Unidos primeiro'&#8221;, disse Coutinho.<\/p>\n<p>Segundo o presidente da AEPET, o pre\u00e7o do diesel em rela\u00e7\u00e3o ao petr\u00f3leo se eleva quando os pre\u00e7os do petr\u00f3leo est\u00e3o mais baixos, e cai quando o petr\u00f3leo se valoriza. Entre 2011 e 2014, com a pol\u00edtica de subs\u00eddios da Petrobras, que n\u00e3o transferiu a eleva\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os internacionais ao mercado interno como forma de conter a infla\u00e7\u00e3o, o pre\u00e7o do diesel se aproximou do pre\u00e7o do petr\u00f3leo. Em 2015 a diferen\u00e7a relativa aumentou, e entre 2016 e 2017, sem os subs\u00eddios e com a nova pol\u00edtica, tornou-se a maior no per\u00edodo, acima do padr\u00e3o internacional. Essa eleva\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o relativo do diesel aos produtores e importadores tamb\u00e9m levou \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o do refino no Brasil, gerando ociosidade e viabilizando a importa\u00e7\u00e3o de derivados, o que tem impactado os resultados operacionais da Petrobras, fato admitido em seus relat\u00f3rios financeiros.<\/p>\n<p>&#8220;Entendemos que uma empresa estatal pode, e deve, ter outros objetivos al\u00e9m de maximizar seus lucros no curto prazo, postura t\u00edpica das multinacionais privadas controladas por agentes do sistema financeiro. O desenvolvimento e a seguran\u00e7a energ\u00e9tica nacionais est\u00e3o entre os objetivos t\u00edpicos das estatais do setor. Ainda assim, a AEPET reconheceu excessos e erros na pol\u00edtica de pre\u00e7os praticada entre 2011 e 2014&#8221;, salientou Coutinho.<\/p>\n<p>&#8220;Cabe agora avaliar a quem os subs\u00eddios anunciados pelo governo [como forma de contornar a greve dos caminhoneiros] servir\u00e3o. Os subs\u00eddios do Estado aos produtores e importadores para que os consumidores possam pagar pelo diesel viabiliza o neg\u00f3cio dos pr\u00f3prios importadores. Na verdade, essa subven\u00e7\u00e3o, que \u00e9 apresentada como ao consumidor, \u00e9 paga com impostos regressivos aos importadores de diesel. Ent\u00e3o os subs\u00eddios s\u00e3o para quem? Para os consumidores ou para os agentes privados e estrangeiros da cadeia de importa\u00e7\u00e3o?&#8221;, questionou Coutinho. Como alternativa, diz ele, a Petrobras poderia arbitrar pre\u00e7os justos, compat\u00edveis com seus custos e mais baixos ao consumidor, recuperando o mercado perdido e impulsionando o crescimento da cadeia de petr\u00f3leo e g\u00e1s. Os consumidores seriam beneficiados com os pre\u00e7os baixos e, se fosse necess\u00e1rio reduzir impostos para os combust\u00edveis, estes poderiam ser compensados com aumento de impostos na exporta\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo cru e importa\u00e7\u00e3o de derivados. &#8220;\u00c9 uma substitui\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria que vai na dire\u00e7\u00e3o do fortalecimento da economia nacional&#8221;, avaliou.<\/p>\n<p>Felipe Coutinho ainda afirmou que a crise, relativa ao pre\u00e7o do diesel, \u00e9 resultado da antecipa\u00e7\u00e3o desnecess\u00e1ria de um problema que \u00e9 inevit\u00e1vel: o fim do petr\u00f3leo convencional e barato de se produzir. &#8220;Cabe, portanto, o alerta de que o problema \u00e9 incontorn\u00e1vel, mesmo que nos livremos desta pol\u00edtica no curto prazo&#8221;, finalizou ele.<\/p>\n<p><strong>Valores<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;O petr\u00f3leo \u00e9 um bem da Uni\u00e3o e, portanto, do povo brasileiro. Se o seu pre\u00e7o sobe, seu dono deveria ser beneficiado. Mas, no Brasil, o dono perde com o aumento dos combust\u00edveis. E isso n\u00e3o faz o menor sentido&#8221;. Foi com essa reflex\u00e3o que Paulo C\u00e9sar Ribeiro Lima, doutor em Engenharia Mec\u00e2nica, ex-pesquisador do Cenpes por 15 anos e consultor legislativo da C\u00e2mara dos Deputados, especializado na \u00e1rea de petr\u00f3leo e g\u00e1s, come\u00e7ou sua exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;O custo de produ\u00e7\u00e3o do barril de diesel de um campo de Pr\u00e9-Sal, com participa\u00e7\u00e3o governamental direta, \u00e9 de, no m\u00e1ximo, 40 d\u00f3lares por barril, cerca de 93 centavos por litro. Antes da crise [em decorr\u00eancia da greve dos caminhoneiros] a Petrobras vendia o litro de diesel por 2,33 reais, ou seja, uma margem de lucro de 150%&#8221;, explicou Lima. Esse valor era acima do mercado internacional, com o mesmo visto tamb\u00e9m no GLP (g\u00e1s de cozinha) e \u00f3leo combust\u00edvel \u2014 o pre\u00e7o da gasolina foi estabilizado nos \u00faltimos meses. &#8220;Na gest\u00e3o de Pedro Parente, o consumidor brasileiro pagou pelo diesel, sem tributos, 40% a mais do que pagou o consumidor americano&#8221;, afirmou o especialista.<\/p>\n<p>Paulo C\u00e9sar Ribeiro Lima tamb\u00e9m abordou alternativas para a crise dos combust\u00edveis: al\u00e9m de tributar a exporta\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo cru e alterar a atual pol\u00edtica de pre\u00e7os da Petrobras, revogar o art. 1\u00ba da Lei n\u00ba 13.586\/2017, para tributar a renda das empresas petrol\u00edferas.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Protagonista na economia brasileira, Petrobr\u00e1s \u00e9 alvo do mito de que estaria quebrada financeiramente \u00a0Empresa brasileira no rol das mais valiosas em a\u00e7\u00f5es, uma das l\u00edderes mundiais no setor de petr\u00f3leo e g\u00e1s e s\u00edmbolo do nacionalismo que impulsionou a industrializa\u00e7\u00e3o do Brasil nos anos 1950, a Petrobras tem reconhecido protagonismo na economia brasileira. 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