{"id":7882,"date":"2019-02-15T10:47:42","date_gmt":"2019-02-15T12:47:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.folhadocomercio.com.br\/folha-do-comercio\/?p=7882"},"modified":"2019-02-15T10:47:58","modified_gmt":"2019-02-15T12:47:58","slug":"quanto-vale-uma-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.folhadocomercio.net.br\/?p=7882","title":{"rendered":"QUANTO VALE UMA VIDA?"},"content":{"rendered":"<div class=\"bt_bb_wrapper\"><p>Margarida Drumond<\/p>\n<p>O presidente Jair Bolsonaro permanece internado no hospital, notadamente pelo quadro<br \/>\nde pneumonia que o acometeu, ap\u00f3s a cirurgia da retirada da bolsa de colostomia, sem d\u00favida<br \/>\num tempo maior do que se pensava, e o pa\u00eds caminha devagar, no sentido das t\u00e3o desejadas<br \/>\nmudan\u00e7as na seguran\u00e7a, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e outras. Enquanto isso, coisas acontecem deixando-<br \/>\nnos perplexos, e elas v\u00eam como numa avalanche; trag\u00e9dias sucessivas amedrontam e fazem<br \/>\npensar: o pa\u00eds conta os mortos, dia ap\u00f3s dia \u2013 fam\u00edlias, a m\u00eddia, eventos sociais&#8230; veem-se<br \/>\nmanifesta\u00e7\u00f5es de sil\u00eancio reverenciando tantas vidas brutalmente ceifadas: os mortos de<br \/>\nBrumadinho; os que se foram devido a chuvas torrenciais no Rio de Janeiro; a dezena de<br \/>\nmeninos atletas de base do Flamengo, pelo inc\u00eandio no Centro de Treinamento, onde dormiam;<br \/>\ne, ainda hoje, mais duas mortes, as do din\u00e2mico e querido jornalista Ricardo Boechat e do piloto<br \/>\nRonaldo Quattucci, pela queda do helic\u00f3ptero na pista do Rodoanel em S\u00e3o Paulo, quando se<br \/>\nchocou com um caminh\u00e3o.<br \/>\nDessa sucess\u00e3o de trag\u00e9dias, as tr\u00eas primeiras, j\u00e1 se sabe claramente, ocorreram por falta<br \/>\nde aten\u00e7\u00e3o dos respons\u00e1veis e por neglig\u00eancia na fiscaliza\u00e7\u00e3o com rigorosa aplica\u00e7\u00e3o de leis.<br \/>\nPor tudo isso, vemo-nos a perguntar quanto vale uma vida? A considerar esses recentes fatos,<br \/>\nparece que nada. O ser humano \u00e9 obra-prima de Deus, mas vem sendo desrespeitado<br \/>\ndiariamente, ficando sua vida em segundo plano. Prioriza-se o capital, conforme desejam<br \/>\nempresas, organiza\u00e7\u00f5es e mesmo pessoas de pouco ou nenhum respeito para com o outro. E se<br \/>\nnem a vida humana \u00e9 poupada, menos ainda o espa\u00e7o em que vivemos. Quanto vale a vida? Se<br \/>\nvale pouco ou nada, a resposta, constatamos, \u00e9 mesmo negativa. Assim, mortes de todo tipo<br \/>\nacontecem aqui e alhures, e isto al\u00e9m das que se d\u00e3o diuturnamente pela viol\u00eancia e pela falta de<br \/>\nassist\u00eancia medica, por exemplo. Tanto descaso originou as mais de 160 mortes com o<br \/>\nrompimento da barragem de rejeitos de min\u00e9rio da Vale, estando ainda mais de uma centena de<br \/>\npessoas desaparecidas; as 6 mortes nas enchentes pela torrencial chuva no Rio de Janeiro, sem<br \/>\ncontar as milhares de pessoas desabrigadas; os 10 meninos do CT do Flamengo; e, hoje, as de<br \/>\nBoechat e Quatrucci, com a queda do helic\u00f3ptero. Como as redes sociais t\u00eam apontado em<br \/>\nmensagens diversas, e algumas tocam fundo cada um de n\u00f3s, tamb\u00e9m por elas vem o<br \/>\nquestionamento quanto \u00e0 vida, e, numa tentativa de entender tudo isto, contata-se que em tais<br \/>\ntrag\u00e9dias est\u00e3o envolvidos os quatro elementos: terra, \u00e1gua, fogo e ar, o que nos mostra quanto<br \/>\nfugaz \u00e9 nossa vida terrena; a qualquer hora e em qualquer lugar, podemos partir, momento no<br \/>\nqual o que importa \u00e9 s\u00f3 o nosso ser, nosso cora\u00e7\u00e3o. Lembrando-me de uma fala do saudoso Pe.<br \/>\nAbdala Jorge, sobre quem escrevi \u201cEu j\u00e1 nasci padre\u201d, quando morrermos Jesus vai nos<br \/>\nperguntar apenas uma coisa: \u201cVoc\u00ea foi bom?\u201d<br \/>\nDe nada vale pensar apenas no capital, se n\u00e3o se investe na pessoa e no ambiente em<br \/>\nque ela est\u00e1 no exerc\u00edcio da profiss\u00e3o; na realiza\u00e7\u00e3o de seus sonhos; na vida em fam\u00edlia. Ao<br \/>\nnascer uma crian\u00e7a, ela \u00e9 festejada e, ao longo dos anos, cuidada com carinho e esmero por seus<br \/>\npais ou respons\u00e1veis. Afinal, \u00e9 motivo de orgulho dos que lhe deram a vida, sendo, tamb\u00e9m, a<br \/>\ncontinuidade da prole. Por isso, h\u00e1 todo um investimento em fun\u00e7\u00e3o do bem da pessoa, h\u00e1<br \/>\nren\u00fancias, sacrif\u00edcios, tudo para que o outro cres\u00e7a e se realize. De s\u00fabito, vidas se v\u00e3o e o que<br \/>\nficam s\u00e3o a lembran\u00e7a, a dor e a saudade. Ent\u00e3o, muito chocou ver a morte dos meninos que<br \/>\ntiveram suas vidas ceifadas brutalmente: chocados ficaram familiares, amigos e o Brasil.<\/p>\n<p>N\u00e3o teria valor a vida dos que se foram com a trag\u00e9dia em Brumadinho; as dos que<br \/>\nmorreram nas enchentes; as vidas de Arthur Vin\u00edcius, Athila Paix\u00e3o, Christian Esm\u00e9rio, Gedson<br \/>\nSantos, Jorge Eduardo, Pablo Henrique, Bernardo Pisetta, Rykelmo de Souza, Samuel Thomas e<br \/>\nVitor Isa\u00edas? O CT do Flamengo, no Ninho do Urubu, onde estavam alojados os dez que<br \/>\nmorreram e os tr\u00eas que conseguiram escapar, n\u00e3o tinha permiss\u00e3o para tal. No entanto, os 13 se<br \/>\nencontravam, l\u00e1, dormindo, mas n\u00e3o tiveram como acordar, nem mesmo quando os colegas<br \/>\ngritaram para que sa\u00edssem: estavam desmaiados sob efeito de toxinas inaladas no inc\u00eandio que<br \/>\nos envolvia.<br \/>\nComo se deu com as mortes ocorridas por neglig\u00eancia e descaso, em Brumadinho e no<br \/>\nCT do Flamengo, as das enchentes poderiam ter sido evitadas. Sem investimentos adequados na<br \/>\ninfraestrutura, ano ap\u00f3s ano o estado do Rio \u00e9 um dos que sofre com as intemp\u00e9ries no tempo<br \/>\ndas chuvas. J\u00e1 no tocante \u00e0s mortes do jornalista e do piloto do helic\u00f3ptero, tamb\u00e9m com<br \/>\nrepercuss\u00e3o imediata e como\u00e7\u00e3o geral, depoimentos d\u00e3o conta de que o experiente piloto tentara<br \/>\naterrissar, decerto por uma pane s\u00fabita na aeronave; n\u00e3o despencou de vez, tentou-se alguma<br \/>\nsa\u00edda. Fato \u00e9 que, em mais esta trag\u00e9dia, outras duas vidas se foram. A morte do argentino<br \/>\nRicardo Boechat, um j\u00e1 apaixonado pelo Brasil onde h\u00e1 d\u00e9cadas trabalhava e constitu\u00edra fam\u00edlia,<br \/>\njornalista atuante em v\u00e1rias m\u00eddias, sempre com argumenta\u00e7\u00f5es fortes em suas considera\u00e7\u00f5es,<br \/>\nmuito chocou o jornalismo brasileiro, seus amigos, sua fam\u00edlia, a sua \u201cdoce Veruska\u201d, conforme<br \/>\na ela sempre se referia. Foi exemplar jornalista, mas, antes, pessoa humana e de bom conv\u00edvio<br \/>\ncom todos. Dentre as v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es por sua morte, destaco a da Procuradora Geral da<br \/>\nRep\u00fablica, Raquel Dodge, segundo quem \u201co sil\u00eancio de Boechat ser\u00e1 eloquente e sentido em<br \/>\ntodo o pa\u00eds, porque ele fazia a cr\u00edtica s\u00e9ria e necess\u00e1ria que caracteriza o bom jornalismo e \u00e9 t\u00e3o<br \/>\nnecess\u00e1rio para a democracia\u201d.<br \/>\nAgora, uma vez registradas tamb\u00e9m as valorosas vidas de Ricardo Boechat e Ronado<br \/>\nQuattucci, \u00e9 mister, em fun\u00e7\u00e3o das demais, dizer \u00e0s distintas autoridades brasileiras, aos<br \/>\nsenhores empres\u00e1rios, aos agentes esportivos que n\u00e3o podemos mais com o descaso para com a<br \/>\nvida humana. O capital n\u00e3o pode prevalecer, em detrimento do bem-estar do outro. Cumpre<br \/>\nrespeitar o que reza o Artigo 3\u00ba da Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos: \u201cTodas as pessoas t\u00eam<br \/>\ndireito \u00e0 vida, \u00e0 liberdade e \u00e0 seguran\u00e7a pessoal\u201d.<\/p>\n<p>Bras\u00edlia, 11 de feverero de 2019.<\/p>\n<p>Margarida Drumond de Assis \u00e9 jornalista, professora e escritora, autora do romance Tempo de saudade,<br \/>\nque apresenta a hist\u00f3ria de Tim\u00f3teo.<br \/>\nContatos: (61) 9.8607-7680 margaridadrumond@gmail.com www.margaridadrumond.com<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Margarida Drumond O presidente Jair Bolsonaro permanece internado no hospital, notadamente pelo quadro de pneumonia que o acometeu, ap\u00f3s a cirurgia da retirada da bolsa de colostomia, sem d\u00favida um tempo maior do que se pensava, e o pa\u00eds caminha devagar, no sentido das t\u00e3o desejadas mudan\u00e7as na seguran\u00e7a, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e outras. 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